Friday, May 26, 2017

“Twin Peaks”


Tem sido notícia nos últimos dias na comunicação social- este Domingo vai estrear nova temporada de “Twin Peaks”.

Eu era louca por essa série. Lembro-me que não perdia um episódio e dava por mim a esperar ansiosamente por mais uma quinta-feira para me inebriar de todos aqueles mistérios intrigantes e uma dose de terror também.

Desta vez não vou acompanhar por diversas razões. Primeiro a série vai ser exibida na TV Cabo ao Domingo à noite. Ora nos fins de semana em que vou a casa não vai dar para acompanhar. Agora no Verão irei mais vezes até casa. Depois há a dificuldade que tenho agora de seguir uma série ou filme em Inglês. Há vinte e seis anos ainda via dos dois olhos e, apesar de compreender pior a língua inglesa do que hoje, agora é mais difícil acompanhar os diálogos e as imagens ao mesmo tempo. A minha visão deteriorar-se bastante.


Naquela altura, tinha eu os meus catorze anos, via muitos filmes e séries. “Twin Peaks” era uma das minhas favoritas. Sempre gostei de mistério e do sobrenatural. Esta série enchia-me as medidas.

Vou aqui narrar as minhas memórias sobre esta série de culto que agora regressa. Estão um pouco fragmentadas mas vou tentar.

Uma vez houve uma visita de estudo a Conímbriga. A minha professora do Ensino Especial vinha-me a ajudar com os degraus e eu vinha a narrar as incidências do episódio da véspera. Ela perguntou-me se eu não tinha medo, já que ela não tinha coragem para ver tal série. Eu respondi que não. Escusado foi ter-lhe explicado que adorava ver, tal era o entusiasmo com que me lembro de estar a narrar o que lá se passava. Houve outra vez em que eu e o Paulo Adriano estivemos durante o intervalo a dissertar sobre um episódio. Ah, já sei por que foi. Eu acho que não vi um episódio ou não comecei a ver a série logo desde o início. Antes de começar um episódio novo, repetiam o que se tinha passado no anterior, como acontecia com algumas novelas. Então havia uma rapariga que estava no hospital e era assombrada por espíritos ou criaturas medonhas que lhe falavam com vozes assustadoras. Uma dessas criaturas disse-lhe que se chamava Mike. Eu não sabia o que se passava com ela para estar ali no hospital a piorar a olhos vistos e então perguntei ao Paulo Adriano que me disse que ela tinha sido violada. Não me lembro se ela chegou a morrer mas aquelas criaturas não a largavam e, à medida que a vinham perturbar, ela ia piorando cada vez mais. Ainda não discutia Futebol nessa altura, pois eram poucos os jogos que podia ver. Davam todos no Canal 2.

O episódio que recordo com mais nitidez tem a ver com uma cena que poderá ser assustadora para algumas pessoas mas que eu achei o máximo. Havia uma rapariga chamada Donna, se a memória não me falha. Acho que ela era amiga ou conhecia a Laura Palmer. Eu penso que foi o pai da Laura Palmer que a matou mas não tenho a certeza. Como? Esse homem estava normalmente a conversar com ela. A certa altura, começou a transformar-se numa criatura medonha. Ficou um monstro. Um demónio com uma força descomunal e atacou a rapariga até a matar mesmo. Depois pegou num saco preto de transportar cadáveres que tinha na mala do carro, colocou a jovem lá dentro e levou-a para outro local. Ela estava toda cheia de arranhões na cara e nódoas negras.

Era já noite quando os detetives da investigação da morte de Laura Palmer foram chamados ao local onde tinha sido deixado o corpo. Estava a chover, se bem me lembro. As luzes dos carros da Polícia refletiam na estrada e o fecho do saco de cadáver estava corrido, mostrando o rosto maltratado da jovem. Ali, tendo como fonte de iluminação os faróis azuis das viaturas policiais, o rosto do cadáver ainda se tornava mais terrível. Uma cena muito bem conseguida!

Lembro-me que estava sempre à espera, com alguma ansiedade e a adrenalina no máximo, que acontecesse ali algo estranho. Dava por mim a ver uma situação perfeitamente natural e a imaginar o que ia acontecer a seguir. Por vezes em “Twin Peaks”, o macabro e o terrível surgiam de situações completamente normais. A cena que relatei acima é o exemplo que mais recordo dessas situações. Também me lembro de umas pessoas tranquilamente em sua casa e, pelo lado de fora, alguém ou alguma coisa mexia nos estores. A cena era acompanhada por uma música daquelas que indiciam perigo ou medo. Não me lembro o que aconteceu a seguir.

Foram noites bem passadas. Naquela altura, tal como hoje, quem me dá uma certa dose de mistério, de macabro e de sobrenatural, dá-me tudo. Faz parte da minha essência.

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