Numa noite fria e chuvosa, Bozd aguardava do outro lado da rua, oculto por um poste de iluminação e um contentor do lixo. Mais uma noite de caça! A sua presa acabava de entrar num bar de alterne com enormes letras vermelhas e berrantes de néon. Ainda vinha de fato e gravata e pasta de executivo na mão. Provavelmente disse à mulher que tinha uma reunião ou jantar de negócios até tarde e só chegaria a casa de madrugada, esgotado dos prazeres proibidos que encontrava naquele lugar. Sempre a mesma coisa. Bozd também foi assim, antes de ser transformado, antes de se tornar um sem-cara.
Numa noite como aquela o homem que um dia foi antes de se transformar numa aberração assassina, também percorria as ruas em busca de prazer. Foi aí que conheceu Marlene. Ela era uma mulher bonita, pernas bem torneadas, um corpo bem proporcionado, seios volumosos sem deixar lugar para a imaginação. Bozd não teve grande hesitação em a escolher para companheira naquela noite. Mas Marlene era outra coisa completamente diferente. Bozd não reparou que ela tinha algo de especial e de sinistro. Marlene não era humana. Já não era. A transformação não apaga os traços do rosto das mulheres como apaga os dos homens, talvez porque a função destas fêmeas é atrair as suas vítimas através do charme e da beleza. Oculto nas sombras, Bozd ainda pensa, o pensamento não apagou com a transformação. Os sentimentos, esses foram arrancados do seu peito, se é que ele alguma vez teve sentimentos.
No final da noite, quando bozd espetar aquela espécie de ferrão ou unha mais comprida que lhe nasceu no dedo indicador como resultado da sua transformação, aquele homem será como ele. Desaparecerá, dando lugar a mais um monstro que percorrerá as ruas em busca de sangue e de morte.
Enquanto espera, bozd espreita o movimento da rua. Já não tem olhos físicos, ele simplesmente se move através de um único olho que também tem no dedo onde lhe nasceu a sua ferramenta de matar e transformar. A fome aperta. Se calhar o homem ainda vai demorar ali dentro.
Analisando a multidão, ele espera a oportunidade de encontrar alguém sozinho e indefeso. Alguém que ele possa puxar e atrair para a sombra. Alguém que ele possa matar e se saciar com o seu sangue. No dia seguinte, a sua vítima vai aparecer estirada no chão com um minúsculo orifício no pescoço. A causa de morte irá ser estranha mas Bozd não se preocupa com isso, ele não é visto durante o dia. De noite ele esconde-se. Como não tem cara, ocujlta-se numa balaclava escura.
Aí vem um homem. Ele traz uma garrafa na mão. Vem de um bar ali perto onde se esteve a divertir. Se viesse do prostíbulo, seria alvo de transformação. Bozd só se quer alimentar agora.
O homem só tarde se apercebe de uma dor lancinante no seu pescoço. Imediatamente fica paralisado devido ao veneno do sem-cara que ele injeta do seu ferrão antes de sugar o sangue e a vida da sua presa. Ele arrasta o homem quase sem vida para trás do contentor do lixo. Ele vai acabar por morrer exangue.
Uma hora depois, lá vem o homem por quem bozd espera. Vem sorridente, cantarolando, aquela injeção de adrenalina que o sexo proibido e despudorado dá aos homens corruptos e sem moral como ele um dia foi.
Saindo das sombras, Bozd guarda distância para a sua presa. Não quer que o homem o note. Com as chaves do carro na mão, o homem abre a porta do veículo. É aí que bozd o surpreende. Um ardor que começa no pescoço, uma dor aguda e repentina como uma picada de inseto, evolui para um sofrimento insuportável. Ele deita-se no chão. Pensa que foi envenenado. Pensa numa vespa ou algo assim mas lembra-se que é de noite e as vespas não são insetos noturnos. Antes de perder os sentidos, pensa num morcego. Mal tem tempo de entrar em pânico. A última coisa que sente é um misto de frio e calor.
Quando acordar, este homem ganhará um nome de guerra, perderá a identidade, perderá os seus traços faciais, a sua humanidade, será um assassino como aquele que o transformou. Também ele caçará homens promíscuos e corruptos e que são pais de família à saída dos antros de perdição.
Bozd levanta o agora seu novo companheiro do chão. As chaves do carro ficaram abandonadas no asfalto. Bozd reclina aquilo que em tempos fora um homem no banco do passageiro, conduzindo ele o veículo com a mão que não tem a sua arma mortal.
A caçada foi bem sucedida. Ele conduz cautelosamente por uma rua secundária na direção de uma casa abandonada. É aí que Marlene e os seus homens aguardam a chegada de mais um que, passada a convalescença, é mais uma sombra na noite. Uma sombra faminta, sanguinária e mortal.
No comments:
Post a Comment