Tuesday, January 05, 2021

Sonhos eternamente adiados, escolhas limitadas

 

Pediram-me para falar um pouco da minha experiência de ser deficiente visual. Tarefa difícil, essa.

 

Nunca aceitei o facto de ser diferente. Talvez porque, desde tenra idade, lidei com os constrangimentos de não ser como os outros e por sentir que iria ter uma existência difícil. Ainda não tinha seis anos e já sentia que pessoas como eu não tinham lugar neste Mundo que não foi feito para nós e nos intimida.

 

Comecei a sentir que as oportunidades não eram as mesmas. Embora sentisse que tinha talento até em mais do que uma área, o facto de ter baixa visão impedia-me de ser aquilo que ambicionava. Exemplo disso foram os sonhos e oportunidades que não tive na rádio que era uma das minhas paixões. Qualquer pessoa, muitas vezes com menor capacidade e talento que eu chegava a um estúdio de rádio e era quase imediatamente colocada a fazer programas. Para mim só restava a desconfiança, a compaixão até. Diziam-me que eu até tinha talento, mas não iam dar oportunidades a alguém como eu porque havia muita gente a perseguir também esse meu sonho.

 

Apesar de nos estudos ser até melhor aluna do que alguns colegas meus, eu hoje vejo-os a trabalhar na nossa área. A terem um emprego de sonho. Quanto a mim, nem sequer me foi dada a oportunidade de provar o meu valor. Só agora muito recentemente estou a fazer alguma coisa na minha área, mas faço-o por puro prazer quando o meu sonho era trabalhar mesmo ali.

 

Em contrapartida, as escolhas que existem para nós são sempre limitadas. É uma realização pessoal ter emprego, mas esse emprego não traz felicidade. No meu caso, sinto que não posso progredir. Não posso sair dali de onde estou e isso traz-me alguma tristeza. Ao mesmo tempo, vejo que as pessoas deixaram de valorizar o meu trabalho e era isso que me dava alento. Tendo as coisas mudado e o meu problema nos olhos se agravado, ponho em causa se valeu ou não a pena sacrificar-me tanto simplesmente para provar que sou uma pessoa capaz e produtiva. Quando o consegui provar, foi-me dado um fardo que, com o passar dos anos não fui capaz de carregar. Á medida que o tempo foi passando, senti que me desmotivava ainda mais. A falta de escolhas impediu-me de achar uma solução. Sempre tinha os meus projetos, mas, com a pouca disponibilidade que tinha, também foram ficando para trás.

 

Mesmo as atividades lúdicas estão praticamente fechadas para nós. As escolhas continuam a ser limitadas. Antes de piorar, sempre gostava de jogar um pouco no telemóvel ou no computador, de fazer alguma atividade ao ar livre, de passear um pouco e, sobretudo, adorava ver Futebol na televisão. Hoje sinto o Mundo cada vez mais fechado. Dou por mim a chorar quando me lembram das corridas que ainda há pouco tempo fazia na rua ou quando os meus jogadores favoritos marcam algum golo que tenha sido espetacular.

 

Também tenho sonhos que podem ser insignificantes para as pessoas comuns. O maior deles é o de conduzir. Muita gente admira-se de esse ser um dos meus maiores sonhos. Quando sonho que estou a conduzir ou simplesmente a andar de bicicleta, fico sempre dececionada quando acordo. Quem conduz todos os dias não dá valor a isso, mas eu, que não posso conduzir, adorava poder fazê-lo.

 

Viajar por todo o Mundo e conhecer pessoas de diferentes culturas também é um dos meus sonhos. Talvez a maneira de o conseguir seja através do Desporto que fomenta a união dos povos. Aí podemos conhecer outras pessoas como nós e fazer amigos. De outra forma, não será possível irmos muito longe.

 

A alternativa é a leitura, a escrita e a música. São estas três coisas que por vezes me fazem sentir bem, que me fazem sonhar, que me fazem viajar sem sair de casa. São atividades que minimizam por instantes todo o sofrimento físico e psicológico que a doença me proporciona.

 

Se a maioria dos meus dias são sombrios, alguns há em que a luz, por ténue que seja, tenta romper a escuridão.

 

“A Dança Da Morte” (impressões pessoais)

 

Este foi o último livro que li em 2020. Era também o livro mais longo que tinha na minha biblioteca digital, logo me ocupou mais tempo.

 

Peguei neste livro porque li uma notícia que dava conta de uma série baseada nele que ia estrear no HBO. Havia a insólita curiosidade de esta obra também falar de uma pandemia que dizimou a quase totalidade da população dos Estados Unidos.

 

Stephen King escreveu este livro em 1978, mas a versão que eu tenho foi reeditada muito tempo depois e contém partes que não entraram na edição original porque o livro ficaria longo. Ainda bem que tenho esta versão! Não me canso de ler Stephen King.

 

Nesta obra ele recupera a personagem Flagg que eu tanto aprecio. Neste livro os sobreviventes da pandemia terão de optar entre o Mal personalizado por Flagg e o Bem personalizado por Mãe Abigail. Por acaso eu aprecio o Flagg e já o adaptei inclusive para a minha realidade. Podem ver isso no último conto que aqui publiquei. Por acaso no outro livro que li onde ele entrava, não tinha olhos vermelhos, que eu me lembre. Dar olhos vermelhos ao Flagg foi a cereja no topo do bolo para Stephen King.

 

Neste livro a pandemia que mata a maioria da população é criada pelo exército dos Estados Unidos para usar contra a União Soviética. Estes acontecimentos passam-se em 1990 e Stephen King não previu que o Muro de Berlim cairia em 1989. Em 1990 já não havia a chamada Guerra Fria. Já não havia necessidade de criar armas biológicas, embora os governos as estejam sempre a criar para qualquer eventualidade.

 

Num acidente, o vírus alterado saiu do laboratório e espalhou-se pela população. Poucas pessoas sobreviveram e é a história dessas pessoas que Stephen King vai narrando. Primeiro estas pessoas lidam individualmente com a perda de familiares e amigos. Depois juntam-se, atendendo ao chamamento de Flagg ou de Mãe Abigail.

 

Trata-se sobretudo de uma batalha entre o Bem e o Mal.

 

2020

 

Mais um ano se passou e este foi muito diferente dos outros que fizeram parte das nossas vidas. Foi ano de pandemia e por isso mesmo, a passagem de ano foi muito diferente.

 

Nos outros anos, costumava passar alguns dias de férias em casa dos meus pais do natal ao ano novo. Este ano que passou, fui lá passar o natal de fugida, sempre com medo de trazer o corona vírus para casa.

 

Com alguma criatividade lá passámos para 2021.

 

Como habitualmente, o primeiro texto do novo ano aqui do meu humilde espaço serve para fazer uma retrospetiva do ano que passou e projetar o que aí vem. Chego à conclusão que a maioria das coisas que tenciono fazer ficam adiadas para anos seguintes.

 

A pandemia foi sem dúvida marcante nas vidas de todos nós. O início do ano prometia com o arranque dos treinos de futebol para cegos. Dois meses depois, tudo estava parado, mas não baixámos os braços e nem tão pouco desistimos. Regressámos em finais de agosto e em outubro fizemos a nossa apresentação. Eu fico na história da modalidade em Portugal ao ser a primeira mulher a entrar em campo num jogo.

 

2021 promete ser o ano da afirmação. Altos voos nos esperam e, se a pandemia deixar, tencionamos fazer até torneios internacionais.

 

Estando tudo parado, houve coisas que não deixaram de estar em alta rotação. O meu blog foi uma delas. Para paragem prolongada já bastou aquele tempo em que perdi a visão. É muito difícil eleger o melhor POST de 2020. Talvez aqueles posts em que narro duas situações em que pessoas me tentam enviar de volta para dentro de um autocarro de onde tinha acabado de sair. Tudo porque se habituaram a nos ver sair pela porta da frente, algo que deixou de acontecer por causa da pandemia.

 

É fácil distinguir a figura de 2020. Dá pelo nome de Mehdi Taremi. Infelizmente e com muita tristeza minha, ele joga nos azuis. Ainda não me conformei com isso. Eu, que como toda a gente sabe, não perdia uma oportunidade de demostrar o meu ódio a essa coletividade, vejo-me de repente mais calma nesse sentido. Ele não tem a culpa que Jorge jesus não o quis no Benfica.

 

É igualmente difícil escolher um livro que me tenha marcado neste ano que passou. Agora leio muito mais e todas as semanas leio mais de três livros.

 

Também me passam pelos ouvidos a cada ano milhares de músicas. Também é difícil escolher uma que seja.

 

Quanto a perspetivas para o próximo ano, o que interessa é ter saúde. O resto virá depois. Por agora, com uma pandemia a assolar o Mundo, é só isso que pedimos. Saúde para nós e para os nossos familiares e amigos.