Wednesday, July 22, 2026

-“A Era dos Diagnósticos” (impressões pessoais)

 

Ora aqui está um bom desafio, um livro como eu gosto. Uma obra para eu dissertar acerca de um assunto. Uma oportunidade de refletir e dar a minha opinião.

 

A irlandesa Suzanne O’Sullivan traz aqui uma obra que dá que pensar. Como é que a Saúde de repente se transformou.

 

Eu conheço e conheci muita gente que anda no médico. Na minha opinião, vão lá vezes demais. Começam por ir por uma doença real, sintomática e depois de lá não saem tão depressa. É que uma pessoa saudável tem realmente um problema agudo e depois, como por magia, já tem o colesterol alto, a pressão arterial alta, com um bocado de sorte ainda desenvolveu diabetes, suspeita-se de problemas no estômago e nos intestinos, toca de fazer aqueles exames evasivos…conheço muita gente assim. Isto tudo porque a indústria farmacêutica, na minha opinião, quer escoar os medicamentos que produz.

 

Já viram a quantidade de medicamentos que os nossos avós tomam? Eu questiono como é que o organismo consegue tolerar tantos produtos químicos. Muitas vezes os medicamentos têm a finalidade de anular os efeitos secundários de outros. Para quê tudo isto em pessoas de oitenta ou mais anos, se a morte é uma inevitabilidade da vida? Muitas dessas pessoas passaram uma vida inteira sem levar um comprimido à boca, só com  muita idade sentiram uma agulha no seu braço…a minha mãe uma vez foi com uma cólica renal para o médico, aí em 2012 ou 2013 e fez os médicos ficarem de boca aberta ao dizer que naquele dia era a primeira vez que levava soro.

 

Antigamente as pessoas eram rijas, morriam quando tinham que morrer, não viam a vida prolongar-se sem que com isso haja qualidade. Muitas vezes a pessoa andava a trabalhar e no dia seguinte já estava deitada num caixão. Sem sofrer, sem fazer exames evasivos, sem provar uma gota de veneno no corpo, como é o caso da quimioterapia que mata ainda mais depressa que o  próprio tumor que alegadamente está a tratar. Até já li que houve cientistas que descobriram uma cura simples para o cancro sem submeter as pessoas a essa tortura. O problema é que é do interesse das indústrias farmacêuticas que se ministrem certas drogas a quem sofre de tumores.

 

É no cancro que estas disparidades na Saúde mais se fazem sentir. Por ser uma doença potencialmente mortal e por cada pessoa já ter tido exemplos de familiares ou amigos que sofreram horrores com essa doença, é o problema de saúde que mais receio e medo irracional causa nas pessoas. Os profissionais de Saúde e sobretudo a indústria farmacêutica aproveitam-se desse medo coletivo. Fazem-se exames de rotina a pessoas saudáveis, submetem-se a tamanhas invasões no seu corpo. Para quê? Eu sei de pessoas que fizeram aquele exame horrível aos intestinos. Estavam bem, não tinham sintomas, apenas estavam na faixa etária para o fazerem. Aquando da realização do exame, a pessoa estava bem, não tinha cancro do colon. Escassos meses depois, a mesma pessoa vai ao médico, desta vez com sintomas. Desenvolveu em pouco tempo um cancro do colon. Mas as pessoas não se apercebem que um cancro pode-se formar no organismo no espaço de segundos. Enquanto estou a escrever estas linhas, há milhões de células no  meu corpo a dividirem-se e a criar novas células. A menos que o meu corpo fosse monitorado em tempo real,  é humanamente impossível monitorar se um cancro se está a desenvolver no meu organismo. O que tem de ser, será. Se morro com cancro, de acidente a atravessar a rua, de um problema cardíaco, de uma infeção, pouco importa. Ninguém cá fica. Lá está, o medo que eu tenho do cancro não se prende com o medo da morte, prende-se com o medo do sofrimento. Na minha família tive casos mais do que suficientes para perceber que não adianta prolongar a vida dessas pessoas. Eu se calhar, se um dia vier a desenvolver a doença, temo mais o tratamento do que a proliferação de células cancerígenas no meu corpo.

 

A menopausa também é outro campo de batalha. Que eu saiba, a minha  avó e a minha mãe nunca se  preocuparam com a menopausa. Se eu perguntar á minha mãe, acho que ela nem sabe o que é isso. No entanto, aproximando-me eu dos cinquenta anos, já ouço pessoas preocupadas com a minha aversão doentia a médicos e hospitais. Se eu não tiver necessidade de lá assentar os pés, não vou só porque as pessoas me pressionam a ir. Se eu desenvolver sintomas como o período menstrual  irregular ou suores noturnos, já sei do que é, juntando isso á idade que já tenho. Fazer o quê? É a vida. As pessoas enchem as consultas externas com essas picuinhices, chega alguém com uma dor forte no peito, com uma febre altíssima e tem de esperar na rua porque essas pessoas da medicina preventiva monopolizam os serviços médicos que por aqui já são insuficientes.

 

Uma coisa que me tem vindo a fazer impressão é a prevalência de pessoas alérgicas a alguma coisa. Comem um pão, ficam com  barriga inchada, logo são intolerantes ao glúten. Bebem um copo de leite, vão a correr para a casa de banho, são intolerantes á lactose. Ainda há uns vinte anos atrás, só havia leite normal nos supermercados. Havia sempre leite gordo, meio gordo e magro, mas todo tinha lactose. Agora o difícil é encontrar um pacote de leite com toda a lactose que eu, comum mortal gosto de ingerir.

 

Deixo para último o diagnóstico de depressões, ansiedade, autismo, outras  neuro divergências…Nisto eu sou suspeita e mesmo agora, quando escrevo estas linhas, lamento não ter andado na escola nos dias de hoje. Se andasse, o que me iam  diagnosticar. Não tendo problemas de aprendizagem, tinha-os em termos de interações sociais. Ainda hoje sou assim. Não gostava de brincar em grupo, passava o recreio junto da professora, de preferência dentro da sala de aulas…alto aí, soa o alarme vermelho de neuro divergência. Na altura ninguém ligava a isso.

 

Depois de a minha avó morrer, até porque coincidiu com as inevitáveis mudanças para a  puberdade, comecei a ter falta de ar, palpitações, sensação de que não ia chegar a de manhã. Isso acontecia durante a noite, na maioria das vezes. O coração parecia saltar do peito. No outro dia de manhã fazia Educação Física sem problemas. A primeira suspeita que se tinha era que eu poderia ter algum problema cardíaco. Estávamos em inícios dos anos noventa. Eu fui para o Desporto e nada foi detetado no meu coração. Estranho…em 2011 andava a ter problemas no trabalho e fui a uma consulta de oftalmologia ou lá o que foi. Eu cheguei num estado deplorável a essa consulta. Estava a tremer por todos os lados e tinha tido  febre uns dias antes sem motivo aparente. Foi aí que esse médico me reencaminhou para a Psiquiatria onde fui diagnosticada com depressão e ansiedade. A médica disse que aquilo não era de agora. Estavam explicados aqueles sintomas que me faziam ter medo de dormir.

 

Conheço pessoas perto dos cinquenta anos, especialmente mulheres, que foram diagnosticadas recentemente. São pessoas que têm família, são mães de filhos, trabalham, cuidam do lar…Uma das perguntas que eu mais fazia quando trabalhava era: como é que as pessoas com família chegam ao fim do dia ainda com capacidade para ouvir outros seres humanos, com capacidade de ouvir as vozes dos filhos, com energia para fazer o jantar e ir para a mesa com a família…Era uma coisa que me custava a entender.

 

Leitora que sou, sempre em busca de respostas e sentido, coloquei a hipótese de, também eu ter qualquer tipo de neuro divergência, pois há coisas muito óbvias em que eu tenho muita dificuldade. Regular-me emocionalmente é uma delas. Perder o foco no espaço de segundos É outra. Não parar quieta, pior ainda. Ter interesses ou manias, cuidado!

 

Talvez esteja aí a cola que une todas as minhas dificuldades que tenho sentido ao longo da vida, para as quais, até então , não encontrava explicação. Muitas dessas mulheres são mães e até avós de crianças que foram reencaminhadas por terem comportamentos de alarme na escola. Descobrem que a mãe e a avó é tão ou mais autista do que o filho ou o neto. Lamentavelmente eu não tenho filhos para amostra, tão premente é a minha capacidade de me relacionar de forma mais íntima com outro Ser Humano.

 

Neste momento estou a ponderar procurar ajuda porque ceguei há sete anos e comecei a perceber que, por exemplo a intolerância ao barulho se intensificou. Lá está, já me disseram que era da menopausa mas eu sempre tive aversão a barulho. O exemplo mais flagrante disso é que eu fico desconfortável quando passo ou tenho mesmo de apanhar um comboio na estação de Coimbra B. Há sempre aquelas campainhas das linhas de comboio a fazer barulho, muitas vezes, duas ao mesmo tempo. Se juntarmos a isso o medo que tenho em atravessar as linhas…Sempre tive esse desconforto. É da menopausa?

 

Há uns tempos atrás, ainda não tinha lido algo acerca deste assunto, estava a jogar Showdown que requer que nos concentremos no som da bola. Houve gente que entrou ou saiu, falou, abriu ou fechou a porta, pegou em objetos…então o meu treinador foi dizendo que eu tinha de isolar o som da bola dos outros sons. Eu não disse nada mas foi tremendo o esforço que fiz para me concentrar na bola. Não tive êxito. A partir daí, instalou-se um incrível cansaço mental em mim, que passei a contar os segundos para sair dali e me meter em casa.

 

Tudo isto junto está a impactar a minha vida. A minha reticência em pedir ajuda prende-se justamente com o facto de essa gente andar encharcada em medicamentos que fazem mais mal do que bem.

 

São assim os dias de hoje. Ainda dizem que a Saúde vai mal. Com a quantidade de pessoas que vão para os centros de saúde ás cinco da manhã para os médicos lhes passarem exames e medicamentos dos quais não precisam…

 

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