Ora aqui está um bom desafio, um livro como eu gosto. Uma
obra para eu dissertar acerca de um assunto. Uma oportunidade de refletir e dar
a minha opinião.
A irlandesa Suzanne O’Sullivan traz aqui uma obra que dá que
pensar. Como é que a Saúde de repente se transformou.
Eu conheço e conheci muita gente que anda no médico. Na minha
opinião, vão lá vezes demais. Começam por ir por uma doença real, sintomática e
depois de lá não saem tão depressa. É que uma pessoa saudável tem realmente um
problema agudo e depois, como por magia, já tem o colesterol alto, a pressão
arterial alta, com um bocado de sorte ainda desenvolveu diabetes, suspeita-se
de problemas no estômago e nos intestinos, toca de fazer aqueles exames
evasivos…conheço muita gente assim. Isto tudo porque a indústria farmacêutica,
na minha opinião, quer escoar os medicamentos que produz.
Já viram a quantidade de medicamentos que os nossos avós
tomam? Eu questiono como é que o organismo consegue tolerar tantos produtos químicos.
Muitas vezes os medicamentos têm a finalidade de anular os efeitos secundários
de outros. Para quê tudo isto em pessoas de oitenta ou mais anos, se a morte é
uma inevitabilidade da vida? Muitas dessas pessoas passaram uma vida inteira
sem levar um comprimido à boca, só com muita idade sentiram uma agulha no seu braço…a
minha mãe uma vez foi com uma cólica renal para o médico, aí em 2012 ou 2013 e
fez os médicos ficarem de boca aberta ao dizer que naquele dia era a primeira
vez que levava soro.
Antigamente as pessoas eram rijas, morriam quando tinham que
morrer, não viam a vida prolongar-se sem que com isso haja qualidade. Muitas
vezes a pessoa andava a trabalhar e no dia seguinte já estava deitada num
caixão. Sem sofrer, sem fazer exames evasivos, sem provar uma gota de veneno no
corpo, como é o caso da quimioterapia que mata ainda mais depressa que o próprio tumor que alegadamente está a tratar.
Até já li que houve cientistas que descobriram uma cura simples para o cancro
sem submeter as pessoas a essa tortura. O problema é que é do interesse das
indústrias farmacêuticas que se ministrem certas drogas a quem sofre de
tumores.
É no cancro que estas disparidades na Saúde mais se fazem
sentir. Por ser uma doença potencialmente mortal e por cada pessoa já ter tido
exemplos de familiares ou amigos que sofreram horrores com essa doença, é o
problema de saúde que mais receio e medo irracional causa nas pessoas. Os profissionais
de Saúde e sobretudo a indústria farmacêutica aproveitam-se desse medo
coletivo. Fazem-se exames de rotina a pessoas saudáveis, submetem-se a tamanhas
invasões no seu corpo. Para quê? Eu sei de pessoas que fizeram aquele exame
horrível aos intestinos. Estavam bem, não tinham sintomas, apenas estavam na
faixa etária para o fazerem. Aquando da realização do exame, a pessoa estava
bem, não tinha cancro do colon. Escassos meses depois, a mesma pessoa vai ao
médico, desta vez com sintomas. Desenvolveu em pouco tempo um cancro do colon.
Mas as pessoas não se apercebem que um cancro pode-se formar no organismo no
espaço de segundos. Enquanto estou a escrever estas linhas, há milhões de
células no meu corpo a dividirem-se e a
criar novas células. A menos que o meu corpo fosse monitorado em tempo real, é humanamente impossível monitorar se um
cancro se está a desenvolver no meu organismo. O que tem de ser, será. Se morro
com cancro, de acidente a atravessar a rua, de um problema cardíaco, de uma
infeção, pouco importa. Ninguém cá fica. Lá está, o medo que eu tenho do cancro
não se prende com o medo da morte, prende-se com o medo do sofrimento. Na minha
família tive casos mais do que suficientes para perceber que não adianta
prolongar a vida dessas pessoas. Eu se calhar, se um dia vier a desenvolver a
doença, temo mais o tratamento do que a proliferação de células cancerígenas no
meu corpo.
A menopausa também é outro campo de batalha. Que eu saiba, a
minha avó e a minha mãe nunca se preocuparam com a menopausa. Se eu perguntar á
minha mãe, acho que ela nem sabe o que é isso. No entanto, aproximando-me eu
dos cinquenta anos, já ouço pessoas preocupadas com a minha aversão doentia a
médicos e hospitais. Se eu não tiver necessidade de lá assentar os pés, não vou
só porque as pessoas me pressionam a ir. Se eu desenvolver sintomas como o
período menstrual irregular ou suores
noturnos, já sei do que é, juntando isso á idade que já tenho. Fazer o quê? É a
vida. As pessoas enchem as consultas externas com essas picuinhices, chega
alguém com uma dor forte no peito, com uma febre altíssima e tem de esperar na
rua porque essas pessoas da medicina preventiva monopolizam os serviços médicos
que por aqui já são insuficientes.
Uma coisa que me tem vindo a fazer impressão é a prevalência
de pessoas alérgicas a alguma coisa. Comem um pão, ficam com barriga inchada, logo são intolerantes ao
glúten. Bebem um copo de leite, vão a correr para a casa de banho, são
intolerantes á lactose. Ainda há uns vinte anos atrás, só havia leite normal
nos supermercados. Havia sempre leite gordo, meio gordo e magro, mas todo tinha
lactose. Agora o difícil é encontrar um pacote de leite com toda a lactose que
eu, comum mortal gosto de ingerir.
Deixo para último o diagnóstico de depressões, ansiedade,
autismo, outras neuro divergências…Nisto
eu sou suspeita e mesmo agora, quando escrevo estas linhas, lamento não ter
andado na escola nos dias de hoje. Se andasse, o que me iam diagnosticar. Não tendo problemas de
aprendizagem, tinha-os em termos de interações sociais. Ainda hoje sou assim.
Não gostava de brincar em grupo, passava o recreio junto da professora, de
preferência dentro da sala de aulas…alto aí, soa o alarme vermelho de neuro
divergência. Na altura ninguém ligava a isso.
Depois de a minha avó morrer, até porque coincidiu com as
inevitáveis mudanças para a puberdade,
comecei a ter falta de ar, palpitações, sensação de que não ia chegar a de
manhã. Isso acontecia durante a noite, na maioria das vezes. O coração parecia
saltar do peito. No outro dia de manhã fazia Educação Física sem problemas. A primeira
suspeita que se tinha era que eu poderia ter algum problema cardíaco. Estávamos
em inícios dos anos noventa. Eu fui para o Desporto e nada foi detetado no meu
coração. Estranho…em 2011 andava a ter problemas no trabalho e fui a uma
consulta de oftalmologia ou lá o que foi. Eu cheguei num estado deplorável a
essa consulta. Estava a tremer por todos os lados e tinha tido febre uns dias antes sem motivo aparente. Foi aí
que esse médico me reencaminhou para a Psiquiatria onde fui diagnosticada com
depressão e ansiedade. A médica disse que aquilo não era de agora. Estavam
explicados aqueles sintomas que me faziam ter medo de dormir.
Conheço pessoas perto dos cinquenta anos, especialmente
mulheres, que foram diagnosticadas recentemente. São pessoas que têm família,
são mães de filhos, trabalham, cuidam do lar…Uma das perguntas que eu mais
fazia quando trabalhava era: como é que as pessoas com família chegam ao fim do
dia ainda com capacidade para ouvir outros seres humanos, com capacidade de
ouvir as vozes dos filhos, com energia para fazer o jantar e ir para a mesa com
a família…Era uma coisa que me custava a entender.
Leitora que sou, sempre em busca de respostas e sentido,
coloquei a hipótese de, também eu ter qualquer tipo de neuro divergência, pois
há coisas muito óbvias em que eu tenho muita dificuldade. Regular-me
emocionalmente é uma delas. Perder o foco no espaço de segundos É outra. Não
parar quieta, pior ainda. Ter interesses ou manias, cuidado!
Talvez esteja aí a cola que une todas as minhas dificuldades
que tenho sentido ao longo da vida, para as quais, até então , não encontrava
explicação. Muitas dessas mulheres são mães e até avós de crianças que foram
reencaminhadas por terem comportamentos de alarme na escola. Descobrem que a
mãe e a avó é tão ou mais autista do que o filho ou o neto. Lamentavelmente eu
não tenho filhos para amostra, tão premente é a minha capacidade de me
relacionar de forma mais íntima com outro Ser Humano.
Neste momento estou a ponderar procurar ajuda porque ceguei
há sete anos e comecei a perceber que, por exemplo a intolerância ao barulho se
intensificou. Lá está, já me disseram que era da menopausa mas eu sempre tive
aversão a barulho. O exemplo mais flagrante disso é que eu fico desconfortável
quando passo ou tenho mesmo de apanhar um comboio na estação de Coimbra B. Há
sempre aquelas campainhas das linhas de comboio a fazer barulho, muitas vezes,
duas ao mesmo tempo. Se juntarmos a isso o medo que tenho em atravessar as
linhas…Sempre tive esse desconforto. É da menopausa?
Há uns tempos atrás, ainda não tinha lido algo acerca deste
assunto, estava a jogar Showdown que requer que nos concentremos no som da
bola. Houve gente que entrou ou saiu, falou, abriu ou fechou a porta, pegou em
objetos…então o meu treinador foi dizendo que eu tinha de isolar o som da bola
dos outros sons. Eu não disse nada mas foi tremendo o esforço que fiz para me
concentrar na bola. Não tive êxito. A partir daí, instalou-se um incrível cansaço
mental em mim, que passei a contar os segundos para sair dali e me meter em
casa.
Tudo isto junto está a impactar a minha vida. A minha
reticência em pedir ajuda prende-se justamente com o facto de essa gente andar
encharcada em medicamentos que fazem mais mal do que bem.
São assim os dias de hoje. Ainda dizem que a Saúde vai mal. Com
a quantidade de pessoas que vão para os centros de saúde ás cinco da manhã para
os médicos lhes passarem exames e medicamentos dos quais não precisam…