Foi com bastante orgulho que assisti ontem á magnífica
exibição da nossa Seleção feminina contra a todo-poderosa congénere dos Estados
Unidos.
Dada a diferença entre os dois conjuntos, pensei logo que
iria ser muito complicado Portugal seguir em frente, embora o futebol nos
proporcione enormes surpresas, sendo por isso mesmo um dos desportos mais
apreciados e mais apaixonantes do Mundo.
Ontem pude assistir ao jogo na íntegra, mais uma vez e
constatei que as nossas navegadoras levaram bem alto o nome e os atributos de
todas as mulheres portuguesas. As que não ligam pura e simplesmente ao futebol,
as que um dia sonharam jogar Futebol e não as deixaram por estúpidos
preconceitos e estereótipos sociais e culturais e ainda as que abriram caminho no passado para que estas
jovens continuem a desenvolver-se e a mostrar a uma retardada sociedade
portuguesa que a mulher também tem qualidade e talento para jogar futebol. Só
não tem na cabeça de mentes tacanhas que, logo quando nasce uma menina, a
forram de cor de rosa e lhe enchem o quarto com bonecas, acreditando que foi
para isso que nasceu. Para cuidar da casa, ser mãe e não embarcar em outras
cavalgarias que não são dignas de uma dama.
Esse tempo já passou há muito. Muitas vezes são as jovens em casa que, perante o olhar reprovador
ainda dos pais, dizem que querem jogar futebol. Ainda há poucos anos se ouvia
dizer que muitas meninas jogavam ás escondidas. Cometeram algum crime? Estavam
a fazer alguma coisa imoral? Se calhar muitas das mais velhas que fizeram parte
deste grupo ainda apanharam pessoas que as incentivaram a desistir, não a
continuar.
É certo que muitas mulheres e meninas nem querem saber de
futebol mas também conheço muitos homens e rapazes que também não o apreciam e,
no entanto, em algum momento das suas vidas, praticamente tiveram uma bola á
cabeceira do berço quando nasceram. Os preconceitos e os preceitos culturais
precisam de levar uma enorme machadada e eu acredito que ontem se ficou com uma
ideia completamente diferente do Futebol nacional praticado por mulheres.
Dou aqui o meu exemplo, pois para além dos tradicionais
preconceitos de género que, já sabem por aqui, muito me irritam, ainda nasci
com uma deficiência visual congénita que
hoje não é obstáculo para também jogar Futebol e, apesar de já não ser jovem,
tento recuperar o tempo perdido e, um dia, quem sabe, possa ver uma outra
versão feminina de uma seleção nacional de futebol- a de Futebol de Cegos. É
esse o meu grande sonho, abrir caminho para que outras mulheres e meninas
simplesmente acreditem que é possível fazer aquilo que sonharam,
independentemente do que a sociedade possa dizer.
Temos o dom de mudar o Mundo, basta querermos. Não há ninguém que
nos faça parar porque, por experiência própria, constato que as mulheres que
amam o Futebol o fazem com maior fulgor, paixão e sentimento do que os homens. As
mulheres que gostam de Futebol são doentiamente fanáticas. Escreve uma delas
estas linhas. Muitos homens que gostam de Futebol ficam de boca aberta quando
lhes digo que sou capaz de estar um dia inteiro a acompanhar jogos de Futebol. Eles
não conseguem. Eu faço isso naturalmente. Sempre fui assim.
Ontem, para não variar, estive colada ao relato do jogo e
rebentei de orgulho quando testemunhei o
excelente jogo das nossas navegadoras que praticamente vulgarizaram a melhor
seleção do Mundo.
Que este jogo e esta participação no Mundial tenha o condão
de despertar consciências e não permitir que ainda hoje não se dê hipóteses em
muitos lados que uma menina escolha entre uma bola e uma boneca.