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Wednesday, January 21, 2026

Sem cara

Numa noite fria e chuvosa, Bozd aguardava do outro lado da rua, oculto por um poste de iluminação e um contentor do lixo. Mais uma noite de caça! A sua presa acabava de entrar num bar de alterne com enormes letras vermelhas e berrantes de néon. Ainda vinha de fato e gravata e pasta de executivo na mão. Provavelmente disse à mulher que tinha uma reunião ou jantar de negócios até tarde e só chegaria a casa de madrugada, esgotado dos prazeres proibidos que encontrava naquele lugar. Sempre a mesma coisa. Bozd também foi assim, antes de ser transformado, antes de se tornar um sem-cara.

 

Numa noite como aquela o homem que um dia foi antes de se transformar numa aberração assassina, também percorria as ruas em busca de prazer. Foi aí que conheceu Marlene. Ela era uma mulher bonita, pernas bem torneadas, um corpo bem proporcionado, seios volumosos sem deixar lugar para a imaginação. Bozd não teve grande hesitação em a escolher para companheira naquela noite. Mas Marlene era outra coisa completamente diferente. Bozd não reparou que ela tinha algo de especial e de sinistro. Marlene não era humana. Já não era. A transformação não apaga os traços do rosto das  mulheres como apaga os dos homens, talvez porque a função destas fêmeas é atrair as suas vítimas através do charme e da beleza. Oculto nas sombras, Bozd ainda pensa, o pensamento não apagou com a transformação. Os sentimentos, esses foram arrancados do seu peito, se é que ele alguma vez teve sentimentos.

 

No final da noite, quando bozd espetar aquela espécie de ferrão ou unha mais comprida que lhe nasceu no dedo indicador como resultado da sua  transformação, aquele homem será como ele. Desaparecerá, dando lugar a mais um monstro que percorrerá as ruas em busca de sangue e de morte.

 

Enquanto espera, bozd espreita o movimento da rua. Já não tem olhos físicos, ele simplesmente se move através de um único olho que também tem no dedo onde lhe nasceu a sua ferramenta de matar e transformar. A fome aperta. Se calhar o homem ainda vai demorar ali dentro.

 

Analisando a multidão, ele espera a oportunidade de encontrar alguém sozinho e indefeso. Alguém que ele possa puxar e atrair para a sombra. Alguém que ele possa matar e se saciar com o seu sangue. No dia seguinte, a sua vítima vai aparecer estirada no chão com um minúsculo orifício no pescoço. A causa de morte irá ser estranha mas Bozd não se preocupa com isso, ele não é visto durante o dia. De noite ele esconde-se. Como não tem cara, ocujlta-se numa balaclava escura.

 

Aí vem um homem. Ele traz uma garrafa na mão. Vem de um bar ali perto onde se esteve a divertir. Se viesse do prostíbulo, seria alvo de transformação. Bozd só se quer alimentar agora.

 

O homem só tarde se apercebe de uma dor lancinante no seu pescoço. Imediatamente fica paralisado devido ao veneno do sem-cara que ele injeta do seu ferrão antes de sugar o sangue e a vida da sua presa. Ele arrasta o homem quase sem vida para trás do contentor do lixo. Ele vai acabar por morrer exangue.

 

Uma hora depois, lá vem o homem por quem bozd espera. Vem sorridente, cantarolando, aquela injeção de adrenalina que o sexo proibido e  despudorado dá aos  homens corruptos e sem moral como ele um dia foi.

 

Saindo das sombras, Bozd guarda distância para a sua presa. Não quer que o homem o note. Com as chaves do carro na mão, o homem abre a porta do veículo. É aí que bozd o surpreende. Um  ardor que começa no pescoço, uma dor aguda e repentina como uma picada de inseto, evolui para um sofrimento insuportável. Ele deita-se no chão. Pensa que foi envenenado. Pensa numa vespa ou algo assim mas lembra-se que é de noite e as vespas não são insetos noturnos. Antes de perder os sentidos, pensa num morcego. Mal tem tempo de entrar em pânico. A última coisa que sente é um misto de frio e calor.

 

Quando acordar, este homem ganhará um nome de guerra, perderá a identidade, perderá os seus traços faciais, a sua humanidade, será um assassino como aquele que o transformou. Também ele caçará homens promíscuos e corruptos e que são pais de família à saída dos antros de perdição.

 

Bozd levanta o agora seu novo companheiro do chão. As chaves do carro ficaram  abandonadas no asfalto. Bozd reclina aquilo que em tempos fora um homem no banco do passageiro, conduzindo ele o veículo com a mão que não tem a sua arma mortal.

 

A caçada foi bem sucedida. Ele conduz cautelosamente por uma rua secundária na  direção de uma casa abandonada. É aí que Marlene e os seus homens aguardam a chegada de mais um que, passada a convalescença, é mais uma sombra na noite. Uma sombra faminta, sanguinária e mortal.

 

Friday, October 31, 2025

O caminho

 

Estando eu de passagem por aquele local sossegado onde as casas eram dispersas, aventurei-me um pouco a caminhar por aquele trilho. Estava um final de tarde agradável, daqueles que o fim de outubro presenteia com cores vivas no Céu e uma atmosfera envolta em mistério.

 

Cantando e assobiando, fui olhando em redor para a vegetação. As pedras sulcavam o caminho e fui observando que nada iria obstruir a minha passagem. Estava a ser agradável estar ali, respirando o ar puro do campo e pouco ou nada escutando. Apenas o restolhar leve da passagem de qualquer ser vivo de pequeno porte através da vegetação.

 

Os meus devaneios fizeram-me esquecer da passagem do tempo. Nem tinha reparado que tinha escurecido assim tão de repente. Mas por esta altura não teria eu já chegado á aldeia. Cheirei o ar a ver se detetava o aconchegante cheiro a fumo das chaminés quando as noites começam a ficar mais frias e sabe bem estar ao lume. O aroma que me chegou ao nariz foi estranho e deslocado daquele lugar tão calmo. Cheirava a carne crua, tal como quando passamos junto a um talho ou matadouro. Olhei através da escuridão. Não se avistava nenhuma casa por ali.

 

O escuro da noite deu também lugar ao frio. A  temperatura também caiu de repente á medida que a claridade foi abandonando o Céu.

 

A calma deu lugar a uma vaga inquietação. O medo de me perder apoderou-se de cada fibra do meu corpo. Apesar de estar a andar tranquilamente, o coração começou, sem aviso , a galopar no meu peito.

 

Poucos quilómetros á frente, comecei a sentir os pelos da nuca arrepiados. Seria frio? Seria medo? Medo de quê? Não estava ali nada nem ninguém que me pudesse ameaçar. Tive de parar. Algo me chamou a  atenção mas não percebi o que foi. Apenas as minhas pernas pararam abruptamente.

 

Olhei e só obtive o puro negrume da noite como resposta. Apenas o caminho se destacava da negra paisagem. As árvores começaram a ser mais densas e comecei-me a assustar  a sério.

 

Por um instante, pareceu-me ver ao longe uma luz que tinha tanto de reconfortante, como de sinistra. Queria ver algum sinal de vida humana e, quando esse sinal surge, ainda me assusto mais. Um lúgubre presságio apoderou-se dos meus sentidos. Algo me começou a impelir de voltar para trás.

 

Começou-me a cheirar a sangue fresco que se veio misturar ao cada vez mais intenso aroma a carne crua.  Voltei a olhar e aquela luz pareceu-me mais intensa, mais ofuscante, quase um farol. Tinha de lá passar, apercebi-me com horror. Não havia como contornar. A solução seria voltar para trás.

 

Á medida que me aproximava, não cheirava só a carne fresca. Cheirava também a carne decomposta. Comecei-me a assustar ainda mais. O cheiro parecia vir daquela construção que não conseguia vislumbrar bem como era. Apenas uma luz brilhava lá dentro.

 

Uma  caibra forte na perna direita obrigou-me a abrandar o passo. Tinha de parar e pedir ajuda ali. Arrastando-me dolorosamente, não me lembrava de sentir medo. A dor na perna era cada vez mais forte.

 

Chegando mais perto do edifício, constatei que afinal era um pequeno e simples anexo. Tinha uma porta á qual eu bati freneticamente. Se calhar com força exagerada. De início ninguém veio atender.

 

Esperei. Ouvi lá dentro passos pesados e algo de metal a ser pousado  naquilo que me pareceu uma mesa inoxidável daquelas de dissecar carne humana na morgue ou  carcaças no talho.

 

O homem que tinha á frente vestia um avental ensanguentado que nem se percebia a cor. Cheirava a carne crua, ligeiramente adocicada. Ainda vinha com uma enorme faca sulcada de sangue na mão.

 

Eu disse que precisava de ajuda. Ele mandou-me entrar e o que vi lá dentro fez-me gelar até aos ossos. Um corpo estava deitado numa mesa com os membros e a cabeça todos separados do tronco. Uma pilha de sacos pretos encontrava-se encostada a uma  parede até ao teto. O chão em volta estava sulcado de sangue. Outro fluído que eu nem queria pensar o que era acumulava-se lá atrás. O cheiro ali era nauseante.

 

Pensei em dar meia volta e correr dali o mais que pudesse. A dor na minha perna estava a passar. Antes sequer que me virasse para a porta, fui agarrado por uns braços incrivelmente fortes e uma lamina fria foi encostada á minha garganta. Tentei gritar mas não emiti som algum.

 

Devo ter perdido a consciência. Quando voltei a mim, encontrava-me num local extremamente frio. Tateei o meu corpo e constatei que estava nu. Foi com horror que percebi que estava amarrado com fortes cordas a outra mesa de metal noutra divisão do pequeno anexo.

 

Ouvi passos. Os dois homens aproximaram-se de mim. Uma enorme faca estava na mão de um deles. Queria gritar mas ninguém me podia ouvir. Os homens preparavam-se para me decapitar ainda com vida.

 

 

Saturday, September 13, 2025

Cinquenta anos

 

Esta é mais do que uma história de amor. É uma história de coragem, abnegação, resiliência, partilha. É uma história duradoura feita de altos e baixos, de bons e maus momentos, de desafios e decisões. Uma história simples de gente simples. Uma história de luta, trabalho, suor e lágrimas.

 

Ele serviu heroicamente a pátria em Moçambique. Não fazia ideia onde ficava a terra que tinha de defender, se possível, com a vida. Por ela lutou, por ela matou e viu morrer. Por ela se tornou herói de guerra recentemente reconhecido. Diz ele que teve de matar para que familiares não chorassem a morte daqueles que amavam e estavam lá longe a lutar.

 

Ela, juntamente com a sua mãe quase cega, construiu uma casa á custa de muito trabalho e abnegação. Tendo também nascido com uma  deficiência visual congénita, tal como a mãe e a avó, não pensava sequer em casar. Mas o amor acabaria por surgir. Chegado da guerra, ele arranjou emprego na serração perto de casa dela e ali se apaixonaram. Casaram em 1975 e, um ano depois, chegou a primeira filha, também ela portadora de deficiência visual. Menos de dois anos depois, viria ao mundo outra filha com o mesmo problema, dada a condição ser genética. Foi um desafio que ambos tiveram de enfrentar, até porque a mãe dela viria a ficar completamente cega, algo que na altura era uma sentença de grande vulnerabilidade, de praticamente desistência da vida. Mesmo cega, ela viria a ser crucial, uma referência importante na vida e educação das netas.

 

Os primeiros anos não foram fáceis. Apesar de nunca ter havido uma situação de fome e extrema carência naquele lar, os tostões eram meticulosamente contados. Os animais e a vida no campo eram meios de subsistência para que não se passassem necessidades. Tempos difíceis, de muito trabalho e incerteza. Tempos desafiantes e de descoberta. Ter um filho portador de deficiência não é fácil para os pais, quanto mais dois. Mas eles aprenderam a viver com essa realidade, a se surpreenderem com a conquista das filhas, boas alunas na escola e com grande sentido de imaginação.

 

Á medida que as filhas foram crescendo, nem por isso eles abrandaram a luta. Trabalhar arduamente está-lhes no sangue. Nos anos noventa havia que pagar os estudos superiores das filhas e mais tarde havia que ajudar, de certa forma, pois não seria fácil a inclusão de pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho. Havia que trabalhar ainda mais no campo, nas lides dos animais.

 

Hoje, com a idade e o corpo a implorar a ambos que parem, eles são incapazes de ouvir os sinais. Muitas vezes discutem, muitas vezes acabam frustrados por não conseguirem chegar a todo o lado como dantes, por os seus corpos vergados pelos anos de luta árdua já não responderem como outrora. Sempre com animais por companhia, eles envelhecem. Não querem ouvir falar dos anos que passam. Cinquenta anos de uma vida em conjunto para estas pessoas simples não tem significado, segundo eles. Para quem vê de fora, é uma história de vida muito bonita e encorajante.

 

Numa altura em que tudo é efémero, em que, á primeira frustração se desiste logo de tudo, este exemplo de vida, esta história real pode inspirar, dar a entender que tudo se conquista com paciência, tempo e esforço. Não desistir na primeira adversidade é o segredo. Ultrapassar em conjunto momentos desafiantes, por mais que haja dias bons e dias maus, ajuda a unir e a construir algo em conjunto que solidifica uma parceria duradoura entre duas pessoas que nunca baixam os braços, por mais que seja difícil muitas vezes levantar da cama.