Era noite. Por acaso nem era muito tarde mas Mehdi sentia-se
extremamente cansado. Um pouco febril talvez. Assim que assentou a cabeça na
almofada, adormeceu quase instantaneamente.
Logo foi levado para um cenário onírico que parecia retirado
de outra era. O amarelo, o laranja e o castanho eram as cores predominantes no
seu sonho, tal como numa foto antiga, do
tempo em que a revelação a cores dava os primeiros passos.
Encontrava-se sozinho num amplo espaço. Era um enorme
recinto de terra batida. Nada de casas ou pessoas por ali. Ao longe notava-se
que havia trânsito algures mas parecia ser um pouco longe.
Aquele colossal espaço parecia ser um enorme parque de
estacionamento para os autocarros. Deviam ser centenas deles. Havia autocarros
a perder de vista mas eram todos iguais. Eram laranja e brancos da rodoviária
nacional, tal como era comum nos anos setenta ou oitenta.
Mehdi queria ir para o seu autocarro mas não via ninguém. Se
calhar era ainda cedo para a hora combinada da saída. Um silêncio opressivo
tomava conta do local, aqui e ali cortado por um canto de algum pássaro ou por
uma buzina longínqua de algum veículo que passava na estrada. Nem uma
reconfortante voz humana.
E agora como iria ele descobrir qual era o seu autocarro no
meio de tantos iguais. Uma voz interior acabou por o repreender: “Devias ter
fixado o número na frente da viatura! Neste mundo laranja e branco é assim que
funciona”.
Mehdi sentia-se perdido. Acertar no autocarro que devia
apanhar seria como procurar uma agulha num palheiro. Era uma tarefa quase
impossível. Havia seguramente centenas de veículos todos iguais por ali. E
agora? O desespero e o medo começaram a
tomar conta do seu espírito.
Foi então que uma voz interior o reencaminhou para a viatura
1547. Os seus pés reagiram inconscientemente e arrastaram-se até lá. O veículo situava-se
sensivelmente a meio do espaço. Imediatamente ele se sentiu mais tranquilo. Já ouvia
gente a falar dentro da viatura. Talvez fosse a única que tivesse vida.
Quando entrou, logo as pessoas se calaram e olharam para
ele. Umas riam-se, outras apontaram-lhe um dedo acusador. Provavelmente já
estariam á espera dele para seguirem viagem.
Só quando se instalou no seu lugar é que Mehdi reparou que
havia anoitecido bastante rápido. Assim que o seu autocarro foi posto em
andamento, logo um imenso ronronar de centenas de motores se fez ouvir.
Seguramente milhares de faróis se acenderam quase em simultâneo. Estava na hora
de seguir viagem.
As portas do autocarro estavam a fechar-se quando ele
acordou ofegante. Sonho muito estranho, esse. Nunca tinha visto autocarros
dessa cor. Que raio aquilo significava.
Sem sono nem qualquer vontade de regressar á cama, procurou
no Google autocarros laranja e brancos da rodoviária nacional. Imediatamente
foi remetido para uma foto já antiga com um exemplar de um desses autocarros. Ficou
longos minutos a olhar para ela. Como foi ele sonhar com tantos autocarros
iguais àquele?
Ficou com medo de sair de casa. O melhor era mesmo telefonar
a alguém a avisar que estava doente.
Sempre atenta ao que se passava, mesmo a muitos quilómetros
de distância, a Rapariga Das Calças Azuis também buscava algo no Google.
Curiosamente a mesma coisa. Tinha acordado com uma forte vontade de redigir um
conto tendo como assunto autocarros da sua infância. Aqueles laranja e brancos
da rodoviária nacional atrás dos quais tanto correu sozinha ou com a sua mãe em
Aveiro.