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Tuesday, December 28, 2021

“Outras Mulheres” (impressões pessoais)

 

Este foi o livro do mês do nosso grupo de leitura.

 

Confesso que este tipo de livros não é muito a minha praia, são livros que não dão luta, não têm ação ou suspense.

 

A homossexualidade vem a pouco e pouco sendo tema na literatura, embora haja um longo caminho a percorrer nessa área. Sobretudo no que diz respeito á homossexualidade feminina ainda é muito o tabu.

 

Este livro mostra-nos o quão grande é o sofrimento de quem é diferente. Como tenho vindo a referir, a homossexualidade não é uma escolha. É algo que nasceu com o indivíduo e muitas pessoas sofrem ainda em silêncio, sacrificando a sua verdadeira felicidade com medo de serem abandonadas por uma sociedade pouco tolerante. Plenitude mental e sexual para essas pessoas não é completa. Existe sempre o vazio, o medo da descriminação e da solidão.

 

Neste caso, Caroline tem dúvidas ainda quanto à sua homossexualidade. Ela tanto se relaciona com homens, como com mulheres.

 

Sentindo-se deprimida e com pensamentos sombrios, ela recorre á ajuda de Ana. Ela apaixona-se por ela, tentando agradar-lhe. Sentindo-se constantemente rejeitada por aqueles a quem ama, Caroline teme agora perder a confiança de Ana que viu dois dos seus filhos morrerem tragicamente.

 

Para além dos dilemas de quem é diferente sem que disso tenha culpa, este livro também nos leva a ver o lado humano dos terapeutas que por vezes possuem dramas e problemas pessoais mais profundos do que alguns dos seus pacientes. Muitos são terapeutas porque algum dia precisaram de ajuda no passado e apaixonaram-se pela profissão. Quantas vezes encontramos por entre crianças que viveram longos internamentos quererem ser médicas ou enfermeiras?

 

Cada vez a sociedade está mais intolerante para quem é diferente. Já conhecemos melhores dias e, por mais que se apele  à inclusão e não discriminação, surgem cada vez mais torrentes de ódio, especialmente através das redes sociais, condenando quem simplesmente cometeu o pecado de ter nascido diferente.

 

Um livro que dá que pensar.

 

Monday, October 18, 2021

Profissional do prazer feminino

 

Ele há com cada uma…

 

Eis um sonho muito intimista, digamos assim. Pornográfico, pode dizer-se.

 

Por onde começar a narrar este episódio onírico bem curioso e embaraçoso para mim, sem dúvida? Freud precisa-se…

 

Alguém para me ajudar recomendou-me que consultasse uma pessoa bem especial. Diria que se tratava de uma prostituta, de uma profissional do sexo. Mas não era uma profissional do sexo qualquer. Digamos que ela era uma prostituta de mulheres, ou seja, uma prostituta lésbica. ela não só atendia mulheres já assumidas, como aquelas que fantasiavam experimentar sexo com outra mulher. Assim, recorriam sem culpas a uma profissional que estava ali mesmo para lhes mostrar o caminho.

 

Não sei por que carga de água, alguém me indicou que deveria requisitar os serviços de tal profissional. Eu lá fui sem saber no que me metia.

 

Entrei numa espécie de consultório. A profissional já se encontrava com pouca roupa e mandou-me deitar numa marquesa comum. Era como se estivesse numa consulta. Nada de ambiente romântico, em tons de rosa e com flores ou corações. Apenas um frio e impessoal consultório com lâmpadas fluorescentes, uma marquesa e pouco mais.

 

Ela mandou-me despir antes de me deitar na marquesa. Ela já estava nua há tempo, como referi. Eu disse que não percebia nada daquilo. Ela disse que não me preocupasse, ela mesmo tomaria o comando. Eu estava ali para desfrutar dos prazeres.

 

Ela começou a percorrer com dedos ágeis o meu corpo. De início senti apenas dedos frios a tocar-me. Depois já não era com frio que me arrepiava. Descobri com assombro que era de prazer. Ela sabia como chegar ás zonas mais sensíveis.

 

Cada vez sentia ondas mais fortes de prazer, até que ela chegou onde queria. A certa altura, em vez de usar os dedos, usou a língua. Aí, com horror e estupefação, apercebi-me que estava a atingir o clímax. Desejei que tal prazer fosse prolongado pelo infinito. Parecia que voava na direção do paraíso. Ondas vibrantes percorriam o meu corpo.

 

Era já outro dia e eu tinha de me encontrar com alguém num local desconhecido. A profissional do sexo foi comigo. A minha preocupação agora era o que iria dizer aos meus amigos e familiares. Como iria eu apresentar a desconhecida que me fazia companhia? Juntas percorríamos um trilho com campos muito verdes de um lado e de outro. As outras pessoas encontravam-se mais adiante.

 

Em breve teria de dar explicações. Não as cheguei a dar porque acordei.

 

Tuesday, June 08, 2021

“A palavra Que Resta” (impressões pessoais)

 

Ultimamente tenho lido livros de autores brasileiros com pouca experiência nestas andanças da escrita. o resultado é deveras surpreendente.

 

Sténio Gardel era um aluno de escrita criativa que apresentou este pequeno livro ou conto como trabalho final. A história está muito bem conseguida e leva-nos a pensar em alguns aspetos da sociedade.

 

O aluno escritor conta-nos a história de Raimundo que aos setenta e um anos aprendeu a ler e a escrever com o objetivo de conseguir ler uma simples carta.

 

A missiva havia sido escrita há muitos anos atrás pelo amor da sua vida- Cícero.

 

Cícero e Raimundo apaixonaram-se um pelo outro mas os preconceitos separaram-nos. Raimundo também sofria por ser diferente e, sobretudo por magoar a sua família.

 

Sua mãe sugeriu que ele abandonasse a casa por só atrair desgraças por ser como era. Ele foi viver para a cidade e acabou por viver com uma transexual.

 

Neste livro são visíveis as amarguras por que passa quem é diferente. Os seres humanos inconscientemente tendem em se afastar e abominar tudo o que se afasta da norma. Criam expetativas em relação aos comportamentos dos outros sobretudo em função do género a que pertencem. Aqui nesta obra esse facto está muito vincado. Raimundo gostava da costura mas era desaconselhado a praticar esse ofício por não ser um ofício de homem.

 

Eu continuo a achar que as pessoas, independentemente do género, devem gostar daquilo que o seu coração lhes diz para gostar, não gostar de uma coisa só porque os outros e a sociedade decretaram que tem de ser assim. O que é que tem um homem gostar de costurar? O que tem um homem gostar de roupas femininas ou uma mulher gostar de roupas masculinas? A sociedade espartilha as pessoas. Não tem em conta o cinzento entre o azul e o rosa. Esta designação de azul para o homem e rosa para a mulher, já de si é bastante castradora e limitativa da individualidade humana.

 

Se as pessoas são homossexuais, não pediram para ser assim. De certo que causa estranheza a todos nós, podemos considerar contranatura mas as pessoas nasceram assim. Muitas sentem orgulho, outras sofrem bastante. Por mais que se esforcem por ser diferentes, não conseguem alterar.

 

Durante muito tempo considerou-se a homossexualidade uma doença ou deficiência. Eu considero mais um traço de personalidade. Um traço individual. É como se nascer de olhos azuis, de pele clara. É como ser baixo e querer ser mais alto. São coisas que não se podem mudar.

 

Por mais pancada que Raimundo apanhasse do pai que viu o seu pai afogar o seu  irmão no rio também por ser homossexual, Raimundo não podia mudar. Estava na sua natureza. Era um traço dele.

 

Vemos nesta obra Raimundo como um lutador mas no final, incrivelmente, ele não teve coragem para ler a carta que demorou uma vida para decifrar.